Sou eu que te escrevo hoje, nesta repetição mastigada de enormes esperanças. Recrio, depois de mais um dia gordo de tudo, esta persona miserável que se espreguiça madrugada dentro, como se o reflexo que vejo no espelho amarelado fosse a mais cruel das mentiras contra a humanidade. Olho-me no espelho: semblante distante pincelado por um renascentista; recorte da dinâmica da vida, isolado do fluido correr das lágrimas fecundas do amor. Os meus amigos morreram e eu olho um reflexo desfigurado, um luar eterno de fortíssimas fantasias.
O suco da vida secou na fonte donde brotavam as imensas hipóteses e agora afunila-se um emaranhado de arbustos e espinhos que perdem toda a música do desconhecido. Rabisco o mapa da terra de cor e viro a minha cabeça para o céu, cheio de buracos brilhantes. Quando morrer não quero ir para junto do brilho das estrelas, para depois do céu; terei dores bastantes ao olhar para trás e ver essa menina terra por pequenos buraquinhos, fechaduras do paraíso, como se eu fosse o adolescente incontrolável para quem os prazeres do sexo são o fim da própria existência.
Não terei outra hipótese senão morrer, mas peço-te firmemente que me não lembres nunca. Prefiro ser na tua vida um pouco mais da força de hoje do que a memória bela de amanhã e serei apenas hoje o sorriso de hoje. Depois não precisas de me esquecer, simplesmente não me lembres e se eu aparecer de surpresa noutra curva do teu corpo não escondas a paixão que ainda desperto em ti por nós sermos sempre hoje.
Já não me resta nada da fome que tinha no coração. Já sou apenas um luar de mares rugindo. Do reflexo amarelado sobra-me metade da cara e debalde insisto, coloco grandes esforços em lembrar como foi mesmo o meu rosto. Fujo da náusea que me causa a existência pantanosa do eu.
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